Carta para quem ama os animais

Querida pessoa que ama os animais,

Escrevo para você que diminui o passo quando vê um cachorro na rua, que fala com gatos como se fossem gente e que nunca passa ilesa por um vídeo de resgate. Para você que sente o coração amolecer diante de um focinho curioso, de um rabo abanando, de um olhar que não pede muito – só presença.

Eu sei. Amar os animais não é só gostar. É um tipo de sensibilidade que atravessa o dia. É reparar em quem não fala, mas sente. É perceber fome, medo, alegria e gratidão em gestos pequenos. É entender que amor também mora no silêncio, no deitar ao lado, no seguir você pela casa sem motivo algum.

E não é só carinho. É responsabilidade. Quem ama os animais carrega um cuidado constante, às vezes cansativo, às vezes solitário. Leva ao veterinário, acorda de madrugada, adapta a rotina, renuncia a coisas. Chora perdas que nem todo mundo entende. Porque o vínculo é real, mesmo quando tentam diminuir dizendo “era só um bicho”.

Você sabe: não era. Nunca é.

Era companhia nos dias difíceis, era presença sem cobrança, era afeto puro em um mundo cheio de condições. Os animais ensinam um amor sem cálculo, sem orgulho, sem jogo. Eles ficam. Eles sentem. Eles perdoam rápido. E talvez por isso amar um animal seja também aprender a amar melhor.

Quem ama os animais costuma amar o mundo com mais cuidado. Sofre mais com a crueldade, se indigna com o abandono, sente raiva da indiferença. Às vezes parece pesado demais carregar tanta empatia. Mas é essa mesma empatia que te faz diferente. Que te faz humana de um jeito bonito.

Talvez você já tenha sido chamada de exagerada, sensível demais, dramática. Talvez não entendam por que você prefere a companhia de um animal à de certas pessoas. Mas você sabe, há lealdades que não falham, presenças que curam e amores que não machucam. E muitos deles têm patas.

Amar os animais também é aceitar despedidas que chegam cedo demais. É aprender que algumas almas passam rápido, mas deixam marcas eternas. Que o tempo deles é outro, mais curto, mais intenso. E mesmo assim – ou talvez por isso – vale cada segundo. Porque quem ama um animal sabe a dor da perda nunca supera a alegria de ter amado. E se ainda dói, é porque foi verdadeiro.

Por isso, quem ama os animais aprende a aproveitar a vida no detalhe, aprende a estar inteira no agora, porque eles vivem assim. Não guardam amor para depois, não economizam afeto, não adiam alegria. Eles ensinam que a vida é isso: dividir o tempo, o chão, o colo e o silêncio enquanto é possível. E fazer desse tempo, por mais simples que pareça, algo profundamente cheio de sentido.

Fica esta carta para você que ama os animais como quem reconhece uma alma. Para lembrar que esse amor não é pequeno, nem bobo, nem excessivo. Ele é necessário. Com carinho, respeito e gratidão por você sentir assim.

 

Drielli Paola – @drielli_paola. Servidora Pública do Tribunal de Justiça de São Paulo. Bacharel em Direito, com pós-graduação e extensões universitárias na área jurídica. Entusiasta de psicologia, história, espiritualidade e causa animal. Apaixonada pela escrita.