Carta a quem veio de longe para trabalhar

Querida pessoa que atravessou distâncias,

Escrevo para você que colocou a vida em uma mala e o coração em estado de coragem. Para você que saiu de onde tudo era conhecido – ruas, vozes, cheiros, colo – e decidiu ir. Ir mesmo sem garantias, mesmo com medo, mesmo com saudade já se anunciando antes da partida.

Vir de longe para trabalhar não é só mudar de endereço. É aprender a existir em outro ritmo, é errar caminhos, reaprender horários, descobrir preços, códigos, silêncios. É se tornar estrangeiro de si mesmo por um tempo, até que o novo comece a caber. E isso exige uma coragem que nem sempre é reconhecida, mas que sustenta tudo.

A saudade chega de mansinho e, às vezes, sem aviso. Ela aparece no gosto da comida que não é igual, na música que toca por acaso, no jeito de falar que ninguém mais entende direito. Tem dias em que a saudade aperta tanto que dá vontade de fazer as malas de volta. Em outros, ela vira companhia silenciosa – não vai embora, mas aprende a caminhar ao seu lado.

Mas junto da saudade vem algo raro: a liberdade. A liberdade de se reinventar, de escolher quem você quer ser quando ninguém te conhece desde sempre. Você aprende a se virar, a confiar no próprio passo, a descobrir forças que estavam quietas. Viver longe também é descobrir que você é maior do que imaginava.

Todo recomeço cansa. Há dias em que o trabalho pesa, em que a solidão chega depois do expediente, em que o quarto parece grande demais para o silêncio que sobra. Recomeçar é repetir muitas vezes “vai dar certo” até que, em algum momento, começa a dar mesmo, ainda que de um jeito diferente do planejado.

E então surgem as amizades do caminho. Gente que não conhece sua versão antiga, mas acolhe a atual. Pessoas que viram família improvisada, que dividem almoço, histórias, confidências e risadas no meio da rotina. São laços criados na urgência do cotidiano, mas que ganham profundidade justamente por isso. Essas amizades sabem das suas lutas, das noites difíceis, das pequenas vitórias. Elas celebram quando você consegue, seguram quando você fraqueja e, sem perceber, ajudam a transformar o lugar estranho em casa possível.

Se hoje você olha para trás e mal reconhece quem partiu, saiba: você cresceu. Cresceu na distância, no trabalho, na saudade e nos encontros. Você honrou sua história ao não desistir dela e expandiu seus limites.

Fique orgulhoso. Vir de longe para trabalhar também é um ato de amor-próprio. Quando chegar seu aniversário, mesmo longe dos seus, lembre-se: há muitos que te querem bem e torcem por ti. A distância é um só um detalhe, pois seguem juntos e unidos nos laços de amor e de amizade.

E, lembre-se, você está indo bem, mesmo nos dias em que duvida.

 

Drielli Paola – @drielli_paola. Servidora Pública do Tribunal de Justiça de São Paulo. Bacharel em Direito, com pós-graduação e extensões universitárias na área jurídica. Entusiasta de psicologia, história, espiritualidade e causa animal. Apaixonada pela escrita.