Com o hábito de leitura diária matinal do noticiário desde o tempo que era assinante de jornais impressos e hoje facilitado com os aplicativos digitais, possibilitou-me aprofundar assuntos de interesse, como a notícia da pesquisa “Percepções sobre o racismo no Brasil”, divulgada no último dia 27, a qual aponta o ambiente escolar como um dos principais palcos da violência racial no Brasil.
De imediato, me veio o conceito de que a educação se dá na escola, entretanto também em muitos outros lugares, podendo ser com a ajuda de outras pessoas, mas também por insights – alguém com a capacidade de entender verdades escondidas – aprendemos ou ensinamos. Então, a violência racial, protagonizada por pessoas racistas, ocorre onde há convívio de pessoas em nossa sociedade.
Nela que é predominantemente racista, machista e homofóbica, torna-se inevitável, no ambiente escolar, refletir todas essas matizes, até porque nela o convívio é coletivo, diário e na escola está depositada a missão de possibilitar acesso a conhecimentos.
Daí a escola acumula mais uma missão, a de transformar esses indivíduos e também, ao mesmo tempo, se transformar, buscando reverter tais valores, visando despertar a essência humana não alienada, através de uma relação adequada e respeitosa entre pessoas.
Para isso ocorrer todos na escola precisam perseverar valorizando os conhecimentos ofertados nos planos de ensino e lá não há porque ensinar racismo, mas sim combatê-lo.
Parece fácil, mas desde os profissionais da educação, comunidade escolar – alunos, pais e responsáveis, servidores escolares – precisam se convencer da necessidade de adotarem uma educação humanizada – antirracista, antimachista e anti-homofóbica. Isso desde a educação infantil com um currículo descolonial, debatendo as relações étnico-raciais, o machismo e a homofobia. Que sociedade vivemos?
Para começar basta, com senso crítico, avaliar o Anuário de Segurança Pública de 2022 que aponta o aumento dos índices em mais de 50% nos registros de racismo e homofobia: foram 2.458 ocorrências de crimes por preconceito de raça ou cor e outros 488 registros de homofobia ou transfobia e, ainda, o anuário aponta que mais de 2,3 mil pessoas LGBTQIA+ foram agredidas no Brasil no ano passado.
Especificamente sobre o racismo o IPEC divulgou recentemente uma pesquisa em que 51% dos entrevistados disseram que já presenciaram alguma situação de racismo e 81% que enxergam o Brasil como um país racista.
O machismo brasileiro aparece também na diferença dos salários entre homens e mulheres, na mesma função. A mulher branca tem salário médio equivalente a 76,3 % do ganho de homens brancos e a mulher negra tem o equivalente a 49,5 %, conforme dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) e do IBGE.
Um dado importante que equipara homens e mulheres negras aos brancos está na distribuição de trabalhadores com ensino superior na administração do ensino público, entretanto, é o segmento de trabalhadores que tem a menor remuneração. Neste caso, tanto os homens como as mulheres negras ocupam vagas na mesma quantidade que os correspondentes brancos (PNAD-2020).
A presença da homofobia evidencia-se na sociedade, fora da educação formal – escola, diante do combate aos atos discriminatórios no Código Brasileiro de Justiça Desportiva que, em seu artigo 43-G, enquadra práticas relacionadas a preconceito em razão de origem étnica, raça, sexo, cor, idade, condição de pessoa idosa ou portadora de deficiência. Clubes brasileiros são punidos com jogos sem público quando comprovado tais atos realizados pelos seus torcedores em seus estádios de futebol.
Diante desse cenário nas escolas, nos estádios, nas ruas, no ônibus, enfim na sociedade em geral a violência racial, machista e homofóbica, infelizmente, ocorre no cotidiano e pelos indicadores acima vem aumentando. O fundamental é combatê-la e o ambiente escolar certamente também é mais um palco para tanto.
Essio Minozzi Jr. licenciado em Matemática e Pedagogia, Pós-Graduado em Gestão Educacional – UNICAMP e Ciências e Técnicas de Governo – FUNDAP, foi vereador e secretário da Educação de Mairiporã.