A vida não floresce no deserto da exaustão

Há um ponto em que o corpo diz basta. Só que ele não grita de repente, ele vai cochichando aos poucos. Primeiro, com um cansaço que parece não passar. Depois, com insônia persistente e com dores que não têm nome. Mais adiante, com a mente que se perde em esquecimentos pequenos, como se deixasse bilhetes espalhados dizendo “eu não aguento mais”. Ainda assim, a gente insiste. Afinal, o mundo aplaude quem não para.
Chamam de burnout, mas antes disso tem um caminho. É o acúmulo de noites mal dormidas, de “só mais uma tarefa”, de “não posso falhar”. É a vida virando uma corrida em que nunca se cruza a linha de chegada. E, pior, essa linha vai sendo empurrada cada vez mais para longe, como se o suficiente nunca fosse alcançado. O corpo corre, a alma fica para trás.
Não é apenas sobre trabalho, embora o trabalho pese. É também sobre as exigências invisíveis como ser produtivo, ser forte, ser alegre, ser disponível, estar sempre em dia com tudo. O burnout é o resultado de uma soma cruel: a pressão de fora mais o silêncio de dentro. E o silêncio dói. Porque, no fundo, sabemos que algo não está certo. Mas quem vai parar? Quem vai dizer não? Quem vai admitir que já não dá conta? Reconhecer-se no limite exige coragem – coragem de desapontar expectativas, inclusive as próprias.
Os sintomas são como alarmes que tentamos ignorar: o choro sem motivo, a impaciência com quem amamos, a sensação de que nada mais traz alegria. Até as pequenas coisas, que antes eram respiro, se tornam cinzas. E quando o vazio aperta, acabamos descontando em algo ou em alguém: em comida, em compras, em discussões desnecessárias, até no próprio corpo. É como se a exaustão buscasse uma válvula de escape, mas todas as saídas levam a mais dor.
O burnout é uma porta que se fecha. Mas, paradoxalmente, também pode ser uma porta que se abre. Porque só quando o corpo grita é que, muitas vezes, finalmente ouvimos. É a chance de aprender outra forma de existir – menos acelerada, menos cruel e mais humana.
Talvez seja hora de ressignificar a ideia de pausa. Pausa não é fracasso, é sobrevivência. É lembrança de que não somos feitos de aço. Somos pele, respiração, alma. Precisamos de cuidado, de silêncio, de descanso. É preciso reaprender a se escutar. Talvez seja sentar cinco minutos em silêncio. Talvez seja dizer “não” sem se justificar. Talvez seja aceitar que nem todo e-mail precisa de resposta imediata, que nem toda cobrança precisa de eco. A vida pede mais frestas do que pressa.
No fim, o burnout é um lembrete amargo, mas necessário: antes de sermos função, meta ou produtividade, somos vida. E vida nenhuma floresce no deserto da exaustão.
E, no entanto, mesmo em meio ao cansaço, há sempre a possibilidade do recomeço. Depois da exaustão, pode nascer um novo olhar, mais gentil, mais calmo, mais consciente dos próprios limites. É quando entendemos que o descanso também é um ato de amor, que cuidar de si não é egoísmo, mas um gesto silencioso de resistência. Porque só floresce quem se permite parar, respirar e renascer.
E eu prefiro viver assim, sei que sou mais feliz desta forma… no compasso sereno de quem aprendeu que a pausa também é movimento, buscando sempre reencontrar o caminho do que me sustenta de verdade. E a você, caro leitor, desejo que não espere o grito do corpo para se escutar. Que a vida lhe permita pausar antes do limite, encontrar beleza antes do esgotamento e reconhecer que, apesar das exigências do mundo, somos feitos para mais do que apenas resistir: somos feitos para viver. Que se lembre, com ternura, a vida não é uma corrida, é um caminho.

Drielli Paola – @drielli_paola. Servidora Pública do Tribunal de Justiça de São Paulo. Bacharel em Direito, com pós-graduação e extensões universitárias na área jurídica. Entusiasta de psicologia, história, espiritualidade e causa animal. Apaixonada pela escrita.