A metáfora da fruta bichada

“Volta-te para dentro de ti mesmo; no interior do homem habita a verdade.” (Santo Agostinho)

Quem nunca escolheu uma fruta bonita na feira e, ao abrir em casa, percebeu que por dentro havia algo estragado? A casca perfeita, o cheiro agradável e a aparência convidativa escondiam aquilo que os olhos não viam. Essa imagem simples do cotidiano ajuda a compreender muito do que vivemos hoje e é nesse ponto que a metáfora da “fruta bichada”, associada às reflexões clínicas de Sándor Ferenczi, ganha um significado atual.

Ferenczi observava que muitos sofrimentos não aparecem de forma evidente. Há dores escondidas atrás de sorrisos educados, rotinas produtivas e perfis impecáveis nas redes sociais. Em algumas histórias, essa aparência de firmeza começa cedo demais: crianças que precisaram amadurecer antes do tempo para lidar com situações difíceis crescem aparentando força por fora, mas carregando partes feridas por dentro como uma fruta que parece pronta na superfície, mas ainda precisa de cuidado interno.

No dia a dia isso se repete. O colega sempre bem-humorado que explode quando a pressão aumenta; o adolescente conectado que silencia quando o celular desliga; pais e mães que seguem firmes enquanto escondem o próprio cansaço atrás do conhecido “está tudo bem”. A metáfora da fruta bichada não fala de fraqueza fala de humanidade. Todos nós acumulamos marcas invisíveis, perdas não nomeadas e exigências que nos fizeram acreditar que só temos valor quando estamos perfeitos.

Vivemos em uma época em que a aparência virou vitrine constante. Mas a vida real é feita de falhas, tropeços e recomeços. Quando fingimos ser imunes a tudo, corremos o risco de endurecer por fora e fragilizar por dentro. Quantas vezes respondemos “tudo bem” sem estar? Quantas vezes usamos o humor para esconder o que precisa de cuidado?

Reconhecer imperfeições não nos enfraquece nos torna mais reais. Assim como aprendemos a olhar além da casca na feira, podemos desenvolver um olhar mais humano para nós e para os outros: escutar com atenção, acolher sem julgamento e lembrar que cada pessoa carrega histórias invisíveis.

E às portas do Carnaval, fantasias, glitter e alegria fazem bem e aproximam as pessoas. Mas junto com o confete vem a responsabilidade: cuidar da saúde, respeitar limites, evitar excessos e lembrar que consentimento e respeito também fazem parte da festa. O melhor Carnaval é aquele que termina com boas memórias e consciência tranquila.

Reflexão – No fundo, a metáfora da fruta bichada nos lembra que ninguém é perfeito por inteiro e está tudo bem. O importante não é esconder as imperfeições, mas aprender a cuidar delas com honestidade e empatia. Porque com menos aparência, vivemos com mais verdade e leveza.”

 

E se neste Carnaval você encontrar alguém sorrindo muito, lembre-se: às vezes o melhor gesto não é apenas dançar junto, mas saber escutar quando a música diminui. Afinal, todos nós carregamos partes que precisam de cuidado e é justamente isso que nos torna humanos.

 

 

Raphael Blanes: Servidor Público Municipal, formado em Filosofia, Gestão em Saúde Pública, Técnico em Vigilância em Saúde com ênfase no Combate às Endemias, Gestão Hospitalar, Saúde Única (One Health), RH e Desenvolvimento de Equipes e graduando em Psicologia. Instagram: @raphaelblanes – Email: blanes.med@gmail.com.