DRIELLI PAOLA
Tenho uma mania de querer entender tudo. Gosto de saber onde estou, para onde estou indo, quais são as possibilidades, o que pode dar errado e, se possível, qual será o desfecho antes mesmo de começar a história. Acho que é uma tentativa de transformar a vida em algo previsível. Como se, conhecendo todas as variáveis, eu pudesse evitar as surpresas. Mas a vida nunca foi muito obediente aos meus planos.
Há coisas que só compreendemos depois que acontecem. Pessoas que entram em nossas histórias sem que saibamos por quê. Portas que se fecham quando ainda tínhamos certeza de que deveríamos permanecer ali. Caminhos que pareciam desvios e, algum tempo depois, descobrimos que eram exatamente o trajeto necessário. É difícil admitir, mas nem tudo precisa fazer sentido imediatamente.
Às vezes, passamos tanto tempo lamentando aquilo que não aconteceu que não conseguimos enxergar o que está sendo construído no lugar.
Talvez aquela oportunidade que não veio tenha aberto espaço para outra. Talvez determinada despedida tenha sido necessária para que pudéssemos nos escutar novamente. Talvez o atraso não tenha sido um atraso, mas apenas o tempo necessário para que estivéssemos preparados.
Não digo isso para romantizar as perdas. Algumas coisas doem. Algumas injustiças continuam sendo injustas. Existem despedidas que gostaríamos de ter evitado e caminhos que jamais escolheríamos voluntariamente. Mas ainda assim, olhando para trás, percebo que algumas das coisas que mais questionei acabaram me levando exatamente para onde eu precisava estar.
É curioso como, no presente, chamamos de confusão aquilo que, no futuro, chamaremos de caminho. Uma das maiores dificuldades de viver é que precisamos tomar decisões sem conhecer o resultado delas. Precisamos fechar portas sem saber o que encontraremos depois. Precisamos confiar sem ter garantias.
Tenho pensado que, talvez, a vida saiba mais sobre nós do que nós mesmos. Enquanto fazemos planos, ela observa possibilidades. Enquanto insistimos em determinados caminhos, ela está preparando outros. Enquanto perguntamos “por quê?”, ela continua silenciosamente respondendo através dos acontecimentos. E há uma certa liberdade em aceitar isso.
Não significa abandonar nossos sonhos ou deixar de lutar pelo que queremos. Significa apenas entender que não precisamos controlar cada detalhe para continuar caminhando. Há coisas que cabem a nós. Outras, não. Cabe-nos escolher, trabalhar, tentar, amar e recomeçar. O restante pertence a esse mistério enorme que chamamos de vida (Deus, espiritualidade, universo, destino…).
Hoje, quando algo não acontece como eu esperava, tento respirar antes de concluir que deu errado. Talvez não tenha dado. Talvez apenas esteja acontecendo de outra maneira. E talvez, no futuro, eu olhe para este momento com a mesma ternura com que olho para tantos outros que um dia não compreendi. Porque, no fim, talvez a vida também saiba o que está fazendo. E talvez eu não precise saber tudo agora.
Talvez, por enquanto, seja suficiente continuar.
Drielli Paola – @drielli_paola. Servidora Pública do Tribunal de Justiça de São Paulo. Bacharel em Direito, com pós-graduação e extensões universitárias na área jurídica. Entusiasta de psicologia, história, espiritualidade e causa animal. Apaixonada pela escrita.