Quem sou eu?

LUÍS ALBERTO

Caro leitor, hoje resolvi refletir sobre uma pergunta que parece simples, mas que, quanto mais pensamos nela, mais complicada fica: afinal, o que faz de mim aquilo que eu sou? Talvez você já tenha ouvido falar do Navio de Teseu, uma antiga história filosófica que atravessou séculos. Imagine um navio que, ao longo dos anos, tem suas peças substituídas, uma por uma. Primeiro uma tábua, depois outra, depois o mastro, as velas e o casco. Até que, um dia, nenhuma das peças originais esteja mais ali. A pergunta é inevitável: aquele ainda é o mesmo navio?

Agora, trazendo essa pergunta para nós mesmos: o que faz com que eu seja eu? Talvez sejam as minhas memórias. Afinal, sou feito das histórias que vivi, das pessoas que conheci, dos lugares por onde passei, das alegrias, das tristezas e até dos erros que cometi. São essas lembranças que, de alguma maneira, constroem a narrativa daquilo que chamamos de minha vida.

Mas e se eu perder a memória? Se uma pessoa, por alguma razão, perder completamente suas lembranças, ela deixa de ser quem era? Deixa de ser a mesma pessoa? Ou continua sendo ela, mesmo sem conseguir se lembrar de quem foi? É uma pergunta difícil. Então podemos tentar outra explicação.

Talvez eu seja o meu corpo. Todos os meus átomos, células, ossos, órgãos, enfim, tudo aquilo que fisicamente me compõe. Mas aí surge outro problema. Se eu perder uma mão em um acidente, continuo sendo eu? Certamente. Se perder uma perna, também. Se perder um órgão, continuarei sendo a mesma pessoa. E, se ao longo dos anos meu corpo for naturalmente substituindo células e tecidos, como acontece continuamente, em que momento eu deixaria de ser eu?

Talvez sejamos, então, muito mais do que matéria. Talvez sejamos a soma das nossas experiências, das nossas lembranças, da nossa consciência e da maneira como percebemos o mundo. Mas existe ainda outra questão que me intriga: a consciência de estar vivo.

Neste exato momento, enquanto você lê estas palavras, existe dentro de você uma certeza silenciosa: eu estou aqui. Você percebe seus pensamentos, suas lembranças, seus sentimentos. Percebe o mundo ao seu redor e sabe, de alguma maneira, que existe. E talvez seja justamente essa consciência que nos torne tão particulares. O Navio de Teseu continua sendo uma pergunta sobre identidade. E talvez nós também sejamos uma espécie de navio em constante reconstrução.

Mudamos fisicamente, mudamos de opinião, esquecemos coisas, aprendemos outras, conhecemos pessoas que nos transformam e deixamos para trás versões de nós mesmos que um dia acreditamos que seriam definitivas.

Mesmo assim, continuamos dizendo: sou e talvez seja justamente por isso que estar vivo seja tão extraordinário. Porque, no fim das contas, entre tantas mudanças, tantas perdas, tantas lembranças e tantas transformações, existe algo em nós que continua dizendo, silenciosamente: eu sou eu.

Não tenho uma resposta definitiva. Hoje, resolvi apenas refletir. algumas perguntas são importantes justamente porque não precisam de resposta.

Luís Alberto de Moraes – @luis.alb – Autor do livro “Costurando o Tempo – dos Caminhos que Passei”