Entre algoritmos e o cafezinho preto

Esse título, caro leitor, parece até nome de livro, mas o assunto é sério. Confesso que ainda estou aprendendo a conviver com essa tal de inteligência artificial. Às vezes ela me surpreende. Outras vezes me faz voltar à velha mania de conferir tudo duas vezes. Há dias em que parece um estagiário brilhante e em outros, lembra aquele amigo que responde com tanta convicção que quase nos convence de uma informação completamente equivocada.

Pois é, estamos nos conhecendo. Enquanto eu aprendo a fazer as perguntas certas, ela aprende a organizar respostas. É uma relação curiosa. Eu a ensino um pouco sobre meu jeito humano de enxergar a vida e ela me mostra que o conhecimento pode viajar numa velocidade que minhas antigas prateleiras de livros e apostilas didáticas não imaginariam. Houve época em que eu tinha uma prateleira bem recheada.

Li nessa semana, algo que chamou a atenção do mundo e neste caso específico é que me inspiro para o artigo desta semana. Cerca de duzentos economistas, pesquisadores e especialistas; entre eles nomes consagrados da ciência econômica, publicaram um manifesto afirmando que precisamos agir agora diante da inteligência artificial. Não porque ela represente uma ameaça por si só, mas porque sua capacidade de transformar o mercado de trabalho, a economia e as relações sociais podem ser muito mais rápidas do que a nossa habilidade de criar regras, adaptar profissões e preparar as pessoas para essa nova realidade.

O fato de tantos nomes e renomes comentarem a respeito, me levou a pensar que este alerta merece mesmo ser ouvido. A humanidade sempre conviveu com grandes revoluções. A máquina a vapor mudou o trabalho, a eletricidade iluminou cidades e transformou indústrias e internet encurtou distâncias, além de colocar o mundo dentro do bolso. Cada inovação trouxe oportunidades, mas também exigiu adaptações.

Agora chegamos a um momento diferente. Pela primeira vez, uma tecnologia não substitui apenas a força dos nossos braços. Ela começa a dividir espaço com aquilo que sempre acreditamos ser exclusivamente humano: a capacidade de pensar, escrever, criar imagens, analisar dados e até conversar. Desculpe, mas tudo isso não apenas me assusta, com me encanta. Nem sei dizer qual a proporção.

É possível que profissões desapareçam, mas outras surgirão. Haverá empresas que nascerão graças à inteligência artificial e outras que não conseguirão acompanhar a velocidade das mudanças. O desafio não será impedir o futuro de chegar, mas sim garantir que ele chegue sem deixar milhões de pessoas pelo caminho.

Enquanto isso, sigo aqui, tentando entender esse novo mundo. Outro dia pedi à inteligência artificial uma ajuda para organizar uma ideia. Ela respondeu em poucos segundos. Fiquei impressionado. Em seguida percebi que passei meia hora reescrevendo o texto para que ele tivesse alma. Talvez seja justamente aí que mora a esperança. Se ela continuar aprendendo a pensar, eu continuarei aprendendo a sentir.

E, se tudo der certo, ainda vou ensinar à inteligência artificial uma das maiores invenções da humanidade: sentar à mesa, tomar um cafezinho preto com adoçante e sem pressa e descobrir que algumas das melhores respostas não cabem em algoritmo algum.

Luís Alberto de Moraes – @luis.alb – Autor do livro “Costurando o Tempo – dos Caminhos que Passei”