O melhor dos mundos

Daqui a exatos sete dias, os brasileiros ingressarão no melhor dos mundos. Nada de inflação, desemprego, saúde precária, insegurança pública, transporte deficiente ou crises políticas. A hora será de união nacional, como pregava a música de Miguel Gustavo em 1970, ano do tricampeonato mundial: “De repente é aquela corrente pra frente, parece que todo o Brasil deu a mão. Todos ligados na mesma emoção, tudo é um só coração. Todos juntos, pra frente Brasil, Brasil! Salve a seleção!”

A Copa do Mundo de 2026 começa no próximo dia 13 e, embora já não provoque a mesma comoção observada em décadas passadas, continua sendo um dos mais poderosos fenômenos de mobilização coletiva do país. Durante algumas semanas, o futebol assume o papel de anestesiante social, capaz de transformar o Brasil em um paraíso momentâneo, digno de expressões como “céu de brigadeiro”, “de vento em popa” e “tempos de vacas gordas”. É o período em que milhões de pessoas suspendem suas preocupações diárias e depositam no desempenho da Seleção uma esperança quase mágica de dias melhores.

Se o time brasileiro iniciar a competição com vitórias convincentes, o entusiasmo ganha proporções ainda maiores. Ruas se enfeitam, conversas passam a girar em torno das partidas e uma espécie de cegueira coletiva toma conta do ambiente nacional. É justamente nesse cenário que a classe política costuma respirar mais aliviada. Escândalos, investigações, denúncias e disputas partidárias perdem espaço para a escalação do técnico, os gols dos atacantes e as projeções sobre quem será o próximo adversário.

O fenômeno não é novo. Ao longo da história, grandes eventos esportivos frequentemente serviram para deslocar o foco da opinião pública. Não se trata de ignorar os problemas do país, mas de reconhecer que o futebol possui uma capacidade singular de monopolizar atenções e emoções. Durante a Copa, a realidade parece entrar em compasso de espera.

Neste ano, o contexto político oferece um ingrediente adicional. Passada a competição, o país voltará suas atenções para as eleições, quando candidatos de diferentes correntes ideológicas buscarão convencer o eleitorado de que possuem as melhores soluções para os desafios nacionais. Até lá, muitos torcem para que a Seleção avance o máximo possível e, quem sabe, conquiste mais um título mundial.

Se o Brasil chegar ao hexacampeonato, a euforia poderá transformar o país em uma imensa festa verde e amarela. Por alguns dias, as divergências serão substituídas por abraços, buzinaços e comemorações. Os problemas continuarão existindo, é claro, mas ficarão temporariamente escondidos atrás das bandeiras nas janelas, das camisas amarelas e dos fogos de artifício.

A Copa não resolve inflação, não cria empregos, não melhora hospitais nem combate a criminalidade. Mas possui uma força rara: a capacidade de fazer milhões de brasileiros acreditarem, ainda que por um breve período, que vivem no melhor dos mundos. E talvez seja exatamente por isso que o futebol continue sendo a maior paixão nacional.

 

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