Há uma certa estranheza em fazer aniversário
Quando somos crianças, contamos os dias. Esperamos a data chegar como quem aguarda uma festa, um presente, uma vela a mais no bolo. Depois, em algum momento difícil de identificar, a relação com o aniversário muda. Continuamos celebrando, mas passamos a enxergar algo além da festa. Começamos a perceber o peso e a beleza do tempo. Porque fazer aniversário não é apenas completar anos. É sobreviver a eles.
É olhar para trás e encontrar pessoas que já não estão aqui. Sonhos que mudaram de forma. Planos que deram certo, outros que fracassaram, alguns que simplesmente deixaram de fazer sentido. É perceber que a pessoa que apaga as velas hoje não é a mesma que as apagou no ano passado.
Talvez por isso exista algo de milagroso nessa data. Não um milagre grandioso, desses que mudam o curso da história. Mas um milagre silencioso. O milagre de continuar. De atravessar dias difíceis, despedidas inesperadas, medos, dúvidas e recomeços. O milagre de seguir acumulando memórias quando tantas coisas poderiam ter interrompido o caminho.
Vivemos em uma cultura que valoriza a juventude como se envelhecer fosse uma derrota. Como se cada novo ano fosse algo a esconder ou lamentar. Mas a verdade é que envelhecer é um privilégio que nem todos recebem. Cada ruga é uma prova de permanência. Cada cabelo branco é um registro do tempo vivido. Cada aniversário é uma pequena vitória contra a impermanência da vida.
E talvez seja por isso que tantas pessoas se emocionem nessa época do ano. Não é apenas felicidade. É também uma espécie de encontro. Um encontro com quem fomos, com quem nos tornamos e com quem ainda estamos tentando ser.
O aniversário nos obriga a fazer uma pausa. A medir a vida não em produtividade, metas ou conquistas, mas em experiências. Em afetos. Em tudo aquilo que não cabe em currículos nem em redes sociais. Quantas pessoas amamos neste último ano? Quantas dores aprendemos a carregar? Quantas vezes fomos obrigados a recomeçar? Quantas vezes descobrimos forças que nem sabíamos possuir? Talvez essas sejam as perguntas que realmente importam.
No fim das contas, fazer aniversário é aceitar que o tempo está passando e, principalmente, agradecer porque ele está passando conosco dentro dele. Existe algo profundamente bonito nisso. O estranho milagre de acordar mais velho e, ao mesmo tempo, continuar cheio de possibilidades. De perceber que a vida não está pronta. Que ainda há páginas em branco. Que ainda há encontros por acontecer. Que ainda há motivos para permanecer.
E hoje, enquanto escrevo estas linhas, também celebro o meu próprio aniversário. Confesso que já enxerguei essa data de muitas formas, com ansiedade, expectativa, nostalgia e até certa melancolia. Mas, neste ano, escolho olhar para ela com gratidão. Gratidão pelas pessoas que caminham ao meu lado, pelos aprendizados que vieram das alegrias e das dores, pelos ciclos que se encerraram e pelos que ainda estão começando. Então, permitam-me uma pequena gentileza: parabéns para mim. Por ter chegado até aqui. Por ter resistido quando parecia impossível. Por continuar acreditando na beleza da vida, mesmo quando ela se apresenta imperfeita.
Que o novo ciclo que se inicia seja generoso e que eu nunca perca a capacidade de me encantar com o estranho milagre de estar viva.
Drielli Paola – @drielli_paola. Servidora Pública do Tribunal de Justiça de São Paulo. Bacharel em Direito, com pós-graduação e extensões universitárias na área jurídica. Entusiasta de psicologia, história, espiritualidade e causa animal. Apaixonada pela escrita.