O desaparecimento do vizinho

Toda vida verdadeira é encontro.” (Martin Buber)

Parando para escolher o tema desta semana fiquei meio nostálgico e lembrei dos vizinhos, das coisas da infância enfim… Houve um tempo em que as ruas eram mais do que caminhos. Eram espaços de convivência. As pessoas conheciam os nomes umas das outras, conversavam nos portões, trocavam receitas, cuidavam das crianças da vizinhança e compartilhavam não apenas o endereço, mas também parte da vida.

Se você parar agora vai se lembrar de um montão de coisas que já viveu: amizades, brigas, quantas coisas vivemos, não é? Kkkk.

Tínhamos vários tipos: os vizinhos chatos, os enxeridos, os amigos, o que só viajavam, os briguentos, os barulhentos, e os parceiros é ou, não é? O vizinho não era apenas alguém que morava ao lado. Era presença, apoio e, muitas vezes, amizade, ou até discussão, mais tinha muito mais presença do que nos dias de hoje, isso com certeza.

Hoje, em muitas cidades, vivemos uma realidade diferente. Prédios cresceram, muros ficaram mais altos, portões se fecharam e as telas ocuparam o lugar das conversas. Muitas pessoas sabem detalhes da vida de desconhecidos nas redes sociais, mas não conhecem o nome de quem divide a mesma rua há anos. Paradoxalmente, nunca estivemos tão conectados e, ao mesmo tempo, tão distantes.

O desaparecimento do vizinho talvez seja um reflexo do ritmo acelerado da vida moderna. A pressa, o medo da violência, a rotina cansativa e o excesso de tecnologia acabaram reduzindo os encontros simples do cotidiano. Aos poucos, perdemos o hábito de conversar sem motivo, de sentar na calçada, de oferecer ajuda espontaneamente ou simplesmente de perguntar: “Como você está? ”E isso tem um impacto maior do que imaginamos.

Comunidade não se constrói apenas com ruas asfaltadas e casas alinhadas. Uma cidade ganha alma quando existem relações humanas. Quando alguém percebe a ausência do outro, quando existe solidariedade nos pequenos gestos e quando ainda há espaço para o sentimento de pertencimento.

Talvez não possamos voltar ao passado exatamente como era antes. O mundo mudou, a sociedade mudou e as formas de viver também. Mas talvez ainda seja possível recuperar algo essencial: a capacidade de enxergar quem está perto de nós.

Reflexão – Claro, talvez você ainda seja uma dessas exceções que conversa com os vizinhos na calçada ou reúne as pessoas para um simples churrasco. Se isso ainda faz parte da sua rotina, valorize, pois, esse tipo de convivência está cada vez mais rara. Porque o verdadeiro progresso não deveria ser medido apenas pela tecnologia ou pelas construções, mas também pela qualidade das relações humanas que conseguimos preservar.

Talvez o futuro esteja justamente em resgatar a proximidade entre as pessoas. Ah! E se quiser me convidar para um churrasco ou um café e só chamar, estou por aqui kkk !!!

 

Raphael Blanes: Servidor Público Municipal, formado em Filosofia, Gestão em Saúde Pública, Técnico em Vigilância em Saúde com ênfase no Combate às Endemias, Gestão Hospitalar, Saúde Única (One Health), RH e Desenvolvimento de Equipes e graduando em Psicologia. Instagram: @raphaelblanes – Email: blanes.med@gmail.com.

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