O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, claramente atento ao calendário eleitoral de 2026 e às possibilidades de reeleição, colocou em prática, nos últimos dias, um amplo pacote de medidas econômicas e sociais que, à primeira vista, podem parecer benéficas à população. No entanto, uma análise mais cuidadosa revela que muitas dessas iniciativas carregam componentes preocupantes, como expansão de gastos públicos sem a devida compensação, flexibilização de regras fiscais, ampliação de subsídios, concessão de crédito com juros favorecidos, parcelamentos generosos de dívidas e novas isenções tributárias.
Em tese, toda ação governamental destinada a estimular o consumo, fomentar investimentos ou aliviar o orçamento das famílias pode ter mérito. O problema surge quando tais medidas são adotadas sem estudos técnicos consistentes, sem avaliação transparente de impacto fiscal e, principalmente, sem planejamento de médio e longo prazos. Nesse contexto, o que deveria ser uma política pública responsável transforma-se em instrumento de conveniência política.
A estratégia não é novidade na história econômica brasileira. Em diferentes momentos, governos de distintas orientações ideológicas recorreram à expansão artificial do gasto público como forma de gerar sensação temporária de prosperidade e bem-estar. No curto prazo, a fórmula costuma produzir dividendos políticos: melhora a percepção popular, estimula o consumo e cria a impressão de que o governo está agindo em favor da população. Porém, como ensina a experiência, a conta inevitavelmente chega.
E ela chega sob a forma de aumento da dívida pública, elevação das taxas de juros, perda de confiança dos investidores, pressão inflacionária e redução da capacidade do Estado de investir em áreas essenciais, como saúde, educação, infraestrutura e segurança pública. Em outras palavras, recursos que poderiam ser destinados a políticas estruturantes acabam comprometidos com o pagamento de juros e com o custeio de medidas emergenciais concebidas para atender interesses eleitorais.
Economistas de diferentes correntes têm se manifestado em jornais, revistas, programas de televisão e nas redes sociais com avaliações convergentes. A percepção predominante é de que o atual pacote de estímulos pode gerar efeitos políticos imediatos, mas tende a agravar o desequilíbrio das contas públicas. O endividamento crescente exige remuneração cada vez maior ao capital, o que pressiona a taxa básica de juros e encarece o crédito para empresas e consumidores. Ao final, quem suporta esse ônus é o contribuinte, personagem permanente e silencioso na engrenagem da irresponsabilidade fiscal.
A situação torna-se ainda mais preocupante quando se observa que o Brasil já convive com uma dívida pública elevada e com um histórico de dificuldades para controlar seus gastos obrigatórios. Ao empurrar obrigações para o futuro e adiar ajustes necessários, o governo cria a ilusão de que o problema não existe, como se bastasse esconder a realidade para que ela deixasse de produzir consequências.
É justamente nesse ponto que a metáfora do “país de Alice” se encaixa com precisão. Tal como na obra de Alice’s Adventures in Wonderland, parece prevalecer um ambiente onde a lógica econômica é substituída por narrativas convenientes, e onde as regras da realidade podem ser ignoradas em nome de objetivos políticos imediatos. No universo da fantasia, é possível acreditar que gastos crescentes não terão custos, que déficits não gerarão inflação e que a dívida pública pode expandir-se indefinidamente sem comprometer o futuro.
No mundo real, contudo, as leis da economia continuam implacáveis. Não existe benefício gratuito nem solução mágica capaz de conciliar gastos excessivos, endividamento crescente e estabilidade econômica. Mais cedo ou mais tarde, o desequilíbrio cobra seu preço, geralmente sob a forma de menor crescimento, redução do poder de compra da população e aumento da insegurança econômica.
O pacote de medidas anunciado pelo governo pode trazer alívio momentâneo a determinados setores e grupos sociais, mas reforça uma prática historicamente recorrente no Brasil: a utilização da política econômica como ferramenta eleitoral. Quando decisões fiscais são orientadas prioritariamente por interesses políticos de curto prazo, e não por critérios técnicos e sustentáveis, o país corre o risco de comprometer sua estabilidade e transferir para as próximas gerações o custo de escolhas pouco responsáveis.
A verdadeira responsabilidade de um governante consiste em equilibrar sensibilidade social com prudência fiscal. Medidas populares podem ser necessárias e legítimas, desde que estejam inseridas em uma estratégia consistente, transparente e financeiramente sustentável. Fora disso, o país deixa o terreno da racionalidade e passa a flertar com um universo de fantasia — onde promessas abundam, mas a realidade, inevitavelmente, se impõe.