Ninguém sério neste País?

Como era de se esperar, o senador Flávio Bolsonaro tornou-se a bola da vez na disputa pela principal cadeira do Palácio do Planalto. Seu envolvimento com Daniel Vorcaro – que, a julgar por tudo o que se viu, ouviu e leu, parece estar no centro de inúmeras articulações de poder – é apenas mais um episódio entre tantos que ligam o controlador do Banco Master a políticos, empresários, prefeituras (por meio dos regimes próprios de previdência) e figuras de destaque do Judiciário, em todas as suas esferas.

Até onde irá essa guerra, que expõe ainda mais as entranhas de uma já combalida classe política, é a pergunta que se impõe. Não há ninguém sério neste País? Nenhuma biografia preservada? Nenhum cidadão capaz de restaurar a confiança dos brasileiros e dar sentido à célebre frase de Rui Barbosa: “De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto”.

O que prospera, em detrimento dos brasileiros, são escândalos como o Mensalão, o Petrolão e operações como a Lava Jato. Multiplicam-se episódios envolvendo dinheiro escondido em malas, apartamentos, cuecas e porões; recursos depositados em nome de familiares; fortunas gastas na compra de mansões e carros de luxo. Forma-se, assim, um quadro dantesco que, ao que tudo indica, está longe de chegar ao fim.

E é a essa classe política – da qual muitos se mostram despreparados ou indiferentes ao interesse público – que o País entrega o poder a cada quatro anos. Os protagonistas, em grande medida, permanecem os mesmos. Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff marcaram a cena política nas últimas duas décadas. Nesse período, poucas lideranças nacionais surgiram com força suficiente para romper esse ciclo, à exceção de Jair Bolsonaro, cujo governo também foi cercado por controvérsias e por denúncias envolvendo familiares e aliados próximos.

O mundo mudou, mas no Brasil o tempo parece ter parado. A eleição presidencial de 2026 se desenha, mais uma vez, sob a sombra de Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro, mantendo viva a polarização entre esquerda e direita que há anos divide o País.

Resta, então, a pergunta que ecoa no sentimento de milhões de brasileiros: haverá alguém sem máculas, com trajetória íntegra e compromisso genuíno com o interesse público, capaz de conduzir os destinos da Nação sem que seu passado revele as mesmas práticas que há décadas corroem a credibilidade da política brasileira?

O Brasil não sofre por falta de talentos ou de pessoas honestas. O que falta é espaço para que lideranças verdadeiramente comprometidas com a ética e o bem comum consigam romper o círculo vicioso do poder. Enquanto o eleitor continuar refém de velhos nomes, velhas práticas e antigas promessas, a política nacional seguirá movida menos por projetos de futuro e mais por escândalos do passado.