Sentir-se representado

Em Mairiporã, a rotina do Legislativo parece presa a um roteiro que pouco se altera ao longo dos anos. A atuação dos vereadores, em grande medida, concentra-se em indicações recorrentes – capina de mato, poda de árvores, pavimentação de ruas, patrolamento e cascalhamento de estradas. Demandas legítimas, mas que, repetidas à exaustão, revelam mais um padrão de manutenção do que de transformação.

A esse conjunto somam-se as concessões de títulos de cidadania, muitas vezes questionadas quanto aos critérios adotados, além de moções e requerimentos que parte da sociedade enxerga como iniciativas de baixo impacto prático – os chamados “assuntos de perfumaria”. Trata-se de uma agenda que, embora componha o papel institucional do vereador, está longe de esgotar as responsabilidades de quem foi eleito para legislar e fiscalizar.

O problema central não está no que se faz, mas no que deixa de ser feito. Falta protagonismo na apresentação de projetos de lei consistentes, capazes de enfrentar os desafios reais do município. Educação, Saúde, Mobilidade Urbana, Segurança e Emprego seguem como temas estruturais que, em sua maioria, dependem quase exclusivamente da iniciativa do Poder Executivo – ou, quando surgem no Legislativo, não avançam.

Essa lacuna contribui para um sentimento crescente de distanciamento entre a população e seus representantes. Quando o cidadão não se reconhece nas prioridades da Câmara, instala-se a percepção de que o mandato não reflete suas necessidades mais urgentes. Representar vai além de encaminhar pedidos pontuais: exige visão de futuro, capacidade técnica e disposição para o debate de políticas públicas que impactem a vida coletiva.

O Legislativo municipal tem, por natureza, um papel estratégico na formulação de soluções. É ali que projetos podem nascer, ser discutidos, aprimorados e transformados em leis que orientem o desenvolvimento da cidade. Abrir mão dessa função é reduzir o alcance da própria democracia local.

Mairiporã, como qualquer município em crescimento, demanda mais do que ações paliativas. Precisa de planejamento, inovação e compromisso com resultados duradouros. Para isso, é essencial que seus representantes ampliem o escopo de atuação, deixando de lado a repetição automática e assumindo o desafio de legislar com profundidade.

Sentir-se representado não é um detalhe – é a base de uma relação saudável entre sociedade e poder público. E essa construção passa, necessariamente, por um Legislativo mais atuante, propositivo e conectado com as reais demandas da população.