Querida pessoa que construiu memórias em Mairiporã
Tem lugares que a gente mora. E tem lugares que moram na gente. Mairiporã é desses. Não importa se você nasceu aqui, chegou depois ou só passou por um tempo, tem algo nesse pedaço de mundo que permanece. Não é algo que se explica com facilidade. É mais uma sensação que se instala devagar, quase sem pedir licença, e quando você percebe… já ficou.
Talvez seja o jeito como o verde insiste em existir, mesmo quando a vida aperta. Como se a natureza lembrasse, o tempo todo, que ainda há espaço para respirar. Talvez seja o silêncio que resiste entre uma rua e outra, um silêncio que não incomoda, mas acolhe. Ou talvez seja o céu, que, em certos fins de tarde, parece mais próximo, mais íntimo, como se coubesse dentro da gente. Ou talvez seja tudo isso junto, misturado, impossível de separar.
Hoje, no aniversário da cidade, eu não penso só em datas, números ou anos que se acumulam. Penso nas histórias que se espalham pelas ruas, nas memórias que se escondem nas esquinas, nos encontros que aconteceram sem que ninguém soubesse, na hora, o quanto seriam importantes.
Penso em quem cresceu aqui e aprendeu a reconhecer caminhos não só pelos nomes das ruas, mas pelas sensações. Em quem sabe exatamente onde o vento muda, onde o sol bate diferente, onde a cidade parece respirar mais fundo. Porque tem lugares que a gente aprende com o corpo, não com o mapa.
Penso também em quem chegou depois, com pressa, com dúvidas, talvez até sem intenção de ficar, e, aos poucos, foi sendo acolhido sem perceber. Porque Mairiporã tem esse jeito discreto de criar pertencimento. Não é barulhento, não se impõe, não precisa provar nada. Ela simplesmente acontece. E quando você vê, já faz parte. E fazer parte, hoje em dia, é quase um milagre.
Mairiporã, com suas curvas, suas represas, pedaços de natureza que resistem, oferece isso: a chance de construir história. Mesmo que simples. Mesmo que silenciosa. Porque nem toda história precisa ser grandiosa para ser importante. Às vezes, ela mora no café de sempre, na padaria da esquina, no caminho repetido que, de tanto ser percorrido, vira quase um ritual. Mora no rosto conhecido que cruza com o seu no meio do dia, naquele aceno breve que diz mais do que qualquer conversa longa. Às vezes, ela mora na certeza, ainda que tranquila, de que você pertence.
E pertencer não é sobre nunca ir embora. É sobre sempre levar um pouco daqui com você. É perceber, mesmo longe, que certos cheiros, certos sons, certas paisagens continuam existindo dentro de você. É entender que casa não é só onde a gente está, mas também tudo aquilo que a gente carrega. Hoje, a cidade faz aniversário. Mas quem ganha o presente somos nós, que tivemos, temos ou ainda teremos a chance de viver algum capítulo da nossa vida aqui.
Que essa cidade continue sendo abrigo para quem precisa de pausa. Que continue sendo caminho para quem busca recomeço. Que continue sendo memória para quem já partiu, mas nunca deixou de sentir.
E que a gente também cuide dela, com presença, com respeito, com afeto. Porque lugares como Mairiporã não existem sozinhos, eles vivem nas pessoas que escolhem ficar, preservar, construir e, principalmente, sentir. Parabéns à cidade. E, de algum jeito, parabéns a você também, que carrega um pedaço dela no peito.
Com carinho, para quem sabe que casa não é só um lugar.
Drielli Paola – @drielli_paola. Servidora Pública do Tribunal de Justiça de São Paulo. Bacharel em Direito, com pós-graduação e extensões universitárias na área jurídica. Entusiasta de psicologia, história, espiritualidade e causa animal. Apaixonada pela escrita.