Há um conceito antigo na filosofia grega que resiste ao tempo com uma elegância quase irônica. Chama-se húbris. Não é apenas a soberba trivial, essa vaidade doméstica que cabe em qualquer conversa de esquina. A húbris é mais sofisticada em sua ruína. Ela se instala quando o indivíduo ultrapassa os limites da própria condição e, no mesmo movimento, perde a capacidade de reconhecer o mundo à sua volta. Já não se trata de pensar alto demais sobre si, mas de acreditar, com uma convicção quase cênica, que ocupa um lugar.
O curioso é que esse fenômeno, tão antigo quanto as tragédias gregas, ganha novas roupagens com uma frequência admirável. Observa-se hoje o surgimento de um tipo bastante peculiar. Um sujeito que se apresenta sob o verniz da razão, mas cuja estrutura é feita de algo bem menos nobre. Não pensa, articula. Não reflete, calcula. Sua lógica não busca a verdade, mas a vantagem. E, ainda assim, há quem se encante com a encenação, talvez pela segurança com que ele sustenta suas certezas, talvez pelo conforto que há em seguir quem fala alto, mesmo quando o que diz só desnuda o caráter podre.
Nesse teatro social, a figura do julgador encontra terreno fértil. E convém lembrar Machado de Assis, caro leitor, que já havia desenhado com precisão quase cirúrgica esses personagens que se instalam na confortável posição de árbitros da vida alheia.
São aqueles que apontam o dedo com desenvoltura, que elevam a voz como quem eleva a própria estatura moral, certos de que sua leitura do mundo não apenas é correta, mas superior. Não debatem, declaram. Não escutam, aguardam a vez de reafirmar o que já decidiram ser verdade.
Há também os que descobriram, com notável rapidez, o valor estratégico de determinadas causas. Abraçam discursos que lhes conferem uma espécie de blindagem moral. Falam como se carregassem o peso das injustiças do mundo, quando, na realidade, mal suportam o peso de uma contradição. É uma escolha inteligente, é preciso reconhecer.
Ao ocupar o lugar do injustiçado, reduzem drasticamente o risco de serem questionados. E assim, o oportunismo veste gravata de virtude, enquanto a esperteza se apresenta como consciência social.
O mais interessante, porém, é que a húbris não se sustenta indefinidamente.
Há algo de profundamente democrático na queda. Ela alcança, com a mesma precisão, tanto o vaidoso silencioso quanto o arrogante barulhento. Quem acredita poder elevar a voz sem medida, cedo ou tarde descobre que o silêncio não é uma escolha, mas uma imposição. E, nesse instante, toda aquela segurança ensaiada revela sua fragilidade.
Talvez more aí uma das ironias mais discretas da vida pública e privada.
Aqueles que mais se empenham em parecer grandes são, com frequência, os que menos suportam a própria estatura quando o cenário muda. A grandiosidade que exibem depende, quase sempre, da plateia distraída. Sem ela, resta pouco além de um eco.
Como já se sabia nos tempos antigos, e como bem perceberia Machado de Assis com seu olhar indulgente e irônico, o castigo não costuma anunciar sua chegada. Ele simplesmente vem. E, para o desconforto dos que se julgavam inalcançáveis, continua vindo a cavalo.
Luís Alberto de Moraes – @luis.alb – Autor do livro “Costurando o Tempo – dos Caminhos que Passei”