Carta para quem olha a lua e sente algo

Querida pessoa que às vezes levanta os olhos para o céu e encontra a lua,

Escrevo para você que já parou no meio de um caminho, de uma conversa ou de um pensamento qualquer só para olhar aquele disco silencioso pendurado na noite. Para você que sente algo difícil de traduzir quando a lua aparece inteira, redonda, iluminando telhados, árvores e lembranças. Talvez você não saiba exatamente o que é. Não é só beleza. Não é só curiosidade. É uma espécie de chamado antigo, uma sensação de que há algo familiar naquele brilho distante. A lua sempre fez isso comigo, conosco.

Muito antes de telescópios, foguetes ou teorias científicas, os seres humanos já olhavam para ela tentando entender o mundo. Os povos antigos observavam suas fases para plantar, colher, navegar, contar o tempo. A lua marcava os ritmos da vida muito antes dos calendários de parede ou dos alarmes de celular. De certa forma, ainda marca.

A lua conversa silenciosamente com a Terra. Sua gravidade move os oceanos, levanta e abaixa marés, puxa e devolve águas como se o planeta respirasse devagar. Há ciclos que se alinham ao seu movimento, nas plantas, nos animais, nos mares e até em nós, mesmo que nem sempre percebamos.

Talvez seja por isso que olhar para a lua cause essa sensação estranha de intimidade. Ela está longe, absurdamente longe, mas participa do funcionamento da vida aqui embaixo. E mesmo depois de tantos séculos olhando para ela com curiosidade e imaginação, o ser humano continua tentando se aproximar.

Depois das primeiras missões que levaram astronautas à superfície lunar, ainda no século passado, agora falamos novamente em voltar. Cientistas e engenheiros planejam novas viagens, novas bases, novos passos naquele solo cinza e silencioso.

O projeto de retorno do homem à lua, que muitos imaginam como o próximo grande capítulo da exploração espacial, mostra que, apesar de toda a tecnologia e de todos os mapas que já temos do universo, ainda sentimos a mesma atração antiga. Ainda queremos chegar mais perto. Mas há algo bonito em pensar que, enquanto foguetes são projetados e trajetórias são calculadas, milhões de pessoas continuam simplesmente olhando para o céu da mesma forma que seus antepassados fizeram por milhares de anos. Sem instrumentos. Sem fórmulas. Apenas com um silêncio cheio de perguntas.

Talvez você seja uma dessas pessoas. Talvez já tenha olhado para a lua em uma noite tranquila e sentido uma mistura curiosa de paz e saudade, mesmo sem saber exatamente do quê. Como se aquele brilho estivesse ligado a alguma memória muito antiga da humanidade. Algo que atravessou gerações e ainda vive em nós.

A lua não responde perguntas. Ela não explica nada. Ela apenas está lá, mudando de forma devagar, desaparecendo e voltando, como um lembrete silencioso de que tudo na vida também se move em ciclos. Cheios e vazios. Começos e recomeços. Claridade e sombra. Talvez seja isso que você sente quando a observa. Não é apenas contemplação. É reconhecimento.

Um pequeno instante em que você percebe que faz parte de algo muito maior: de um planeta que gira, de marés que se levantam, de ciclos que continuam acontecendo, noite após noite, muito além das nossas preocupações diárias. Então, se um dia você se pegar olhando para a lua e sentindo algo que não sabe explicar, não se apresse em entender.

Algumas coisas não pedem explicação. Pedem apenas que a gente levante os olhos e permaneça ali por um momento, lembrando que, apesar de todas as distâncias, o universo sempre encontra um jeito de conversar com a gente.

Com carinho, para quem ainda olha a lua e sente.

 

 

Drielli Paola – @drielli_paola. Servidora Pública do Tribunal de Justiça de São Paulo. Bacharel em Direito, com pós-graduação e extensões universitárias na área jurídica. Entusiasta de psicologia, história, espiritualidade e causa animal. Apaixonada pela escrita.