Sobre tamanhos e valores

Há gente que viva de horizontes largos e há quem viva de pequenos espaços. E curiosamente, quase sempre é dessas profundezas apertadas e escuras de onde partem os comentários mais ruidosos. Gente pequena tem uma curiosa obsessão por gente grande. Não lhes sai da boca, não lhes abandona o pensamento.

Falam, repetem, conjecturam, imaginam. É quase um ofício. Talvez porque coisas grandes tenham essa inconveniência inevitável: aparecem. Obras consistentes fazem barulho. Caminhos firmes levantam poeira. E quem anda parado, inevitavelmente, acaba respirando essa poeira com certo incômodo.

Há também um fenômeno curioso da maturidade mal resolvida: adultos que envelhecem no corpo, mas permanecem crianças na condução das próprias emoções. A criança, porém, tem desculpa pois está aprendendo a viver. O adulto ressentido, não. Este costuma carregar uma especialidade bastante comum: transformar o fracasso próprio em culpa alheia.

É uma engenharia psicológica inventiva, embora pouco elegante. Afinal, assumir a própria responsabilidade exige algo raro: grandeza. E grandeza, convenhamos, não é atributo que se distribua em atacado.

Observo tudo isso com uma serenidade que beira a indiferença. A inveja alheia, a vaidade ruidosa e o narcisismo teatral. Tudo isso quando chega até mim, já chega cansado. Mal passa de uma brisa tímida. E brisa, para quem já enfrentou ventos mais fortes, não desarruma o caminho, por isso eu sigo livre, sobretudo da necessidade de disputar miudezas.

Enquanto alguns se ocupam em apontar dedos, sigo com as mãos ocupadas construindo. Há uma diferença fundamental entre quem observa a estrada e quem a percorre. No meu caso, sigo nela: uma estrada bonita, dessas que se abrem largas sob um sol claro, onde o vento bate no rosto com força de tempestade, mas tempestade de movimento, de trabalho, de realizações. O tipo de tempestade que só encontra quem está a caminho sempre em frente.

Quem vive produzindo caminho não tem muito tempo para olhar pelo retrovisor, mas quem ficou parado costuma passar a vida inteira olhando para quem seguiu em frente. E talvez seja essa a maior diferença entre uns e outros: enquanto alguns desperdiçam o tempo medindo os passos alheios, outros seguem ocupados demais deixando pegadas no próprio caminho.

 

 

Luís Alberto de Moraes – @luis.alb – Autor do livro “Costurando o Tempo – dos Caminhos que Passei”