Querida pessoa que caminha ao lado de um focinho já grisalho,
Escrevo para você que começou a perceber o tempo de um jeito diferente. Para você que agora observa passos mais lentos pela casa, cochilos mais longos no meio da tarde e aquele olhar que continua o mesmo, cheio de amor, mesmo quando o corpo já não acompanha com a mesma energia de antes. Eu sei, ter um cachorro idoso é viver um amor atravessado pela consciência do tempo. É lembrar, de repente, do dia em que ele chegou pequeno demais para as próprias patas. É se dar conta de quantas fases da sua vida ele acompanhou em silêncio: mudanças de humor, de casa, de planos. Eles sempre sabem. Sempre estiveram ali.
E talvez a sua história com cachorros idosos já tenha começado antes. Talvez você tenha vivido essa despedida uma vez, tenha prometido que o coração não aguentaria de novo e, ainda assim, tenha adotado outros pelo caminho, porque amar sempre falou mais alto que o medo.
E agora, ao perceber os sinais da idade chegando neste companheiro também, o peito volta a apertar de um jeito conhecido. Não é só o presente que dói, mas também a memória da perda que se aproxima devagar, sussurrando medos que você já conhece bem. Amar de novo, você percebe, também é aceitar sentir esse temor outra vez.
Agora você se pega reparando em detalhes que antes passavam despercebidos, como a dificuldade para subir no sofá, a audição um pouco falha, a forma como ele te procura com os olhos quando você sai do cômodo, como se ainda fosse aquele filhote que só queria ter certeza de que você voltaria.
Talvez tenha dias em que seu peito aperte. Dias em que você o observa dormindo e faz um carinho mais demorado do que o normal. Dias em que a palavra “aproveitar” ganha um peso novo e silencioso. Porque quem ama um cachorro idoso aprende uma coisa que ninguém ensina direito: o amor também mora na despedida que ainda não chegou, mas já ensina.
Mas deixa eu te lembrar de algo importante. Para ele, ainda é hoje. Ainda é alegria quando você pega a guia. Ainda é felicidade quando você entra pela porta. Ainda é conforto deitar perto de você no fim do dia. Eles não vivem contando tempo como a gente. Eles vivem presença. E talvez essa seja uma das maiores delicadezas que eles nos oferecem, a chance de aprender a amar no agora.
Continue falando com ele com aquela voz que você sempre usou. Continue comemorando os pequenos momentos, o rabinho abanando devagar, o olhar tranquilo, o suspiro fundo antes de dormir. Continue oferecendo colo, paciência e rotina. Porque, para um cachorro idoso, o que mais importa não é quantos anos passaram. É quem ficou. É quem permaneceu. É quem continua ali, todos os dias, sendo casa. E você está fazendo isso. Mesmo quando o coração aperta. Mesmo quando a saudade futura tenta chegar antes da hora. Mesmo quando dá medo de pensar no depois. O seu amor está chegando exatamente onde precisa chegar.
Então hoje, só por hoje, abaixa até a altura dele. Faz aquele carinho que ele gosta. Fica mais cinco minutinhos. Fala o nome dele com doçura. Eles entendem. Eles sempre entendem. Com amor, para os meus idosos que já se foram e para todos os outros que partilham a vida comigo. Com carinho, para você que ama um coração que já caminhou muitas estações ao seu lado.
Drielli Paola – @drielli_paola. Servidora Pública do Tribunal de Justiça de São Paulo. Bacharel em Direito, com pós-graduação e extensões universitárias na área jurídica. Entusiasta de psicologia, história, espiritualidade e causa animal. Apaixonada pela escrita.