Quando a guerra começa, ela não explode apenas nos territórios onde caem as bombas. Ela se infiltra primeiro no coração das pessoas. Chega pelas telas dos celulares, pelas manchetes apressadas, pelas imagens repetidas de prédios em ruínas e de rostos que já não sabem se choram pelo que perderam ou pelo que ainda vão perder. Na última semana, as cenas vindas do Irã reacenderam um medo antigo, esse que a humanidade tenta esconder, mas nunca consegue esquecer: o medo de que o mundo volte a se dividir entre quem ataca e quem foge.
Há algo de profundamente humano nesse susto coletivo. Não é apenas política, nem estratégia militar. É a sensação de que a normalidade é frágil como vidro fino. Ontem era trabalho, escola, mercado, conversa fiada na esquina. Hoje são sirenes, mapas com setas vermelhas, especialistas explicando o que pode acontecer. A guerra transforma o cotidiano em um campo de incertezas. E o futuro, que antes era feito de planos simples, passa a ser uma pergunta sem resposta.
As imagens da última semana não mostram só explosões. Elas vão mostrar mães apertando filhos contra o peito, homens parados diante de escombros, cidades que já não reconhecem a própria paisagem. Essas cenas atravessam fronteiras e pousam dentro das casas de quem assiste. O medo não precisa de passaporte. Ele entra pela televisão, senta no sofá da sala e pergunta em silêncio: “E se isso chegar até nós?” Nesse momento, o mundo inteiro parece respirar mais curto.
Não podemos nós considerarmos que isso não vai interferir em nossas vidas aqui no Brasil. Se durar muito tempo, logo veremos o cenário de pessoas estocando comida e outras buscam notícias de parentes naqueles países. O maior avião de passageiros do mundo teve que retornar a Guarulhos essa semana, em uma cena bem incomum.
Há quem reze, há quem negue, há quem se revolte. Mas todos, em algum grau, sentem o peso da instabilidade. A guerra nos lembra que a paz não é garantida; é uma construção diária, frágil, dependente da lucidez de poucos e da esperança de muitos. Talvez o maior drama não seja o barulho das armas, mas o silêncio que se instala dentro de cada um. Um silêncio cheio de perguntas: até onde isso vai? Quem será o próximo? Que tipo de mundo estamos deixando para os que vêm depois?
A guerra, mesmo distante, nos obriga a encarar nossa vulnerabilidade. Ela nos faz perceber que o planeta é pequeno demais para tanto ódio e grande demais para tanta indiferença.
Interessante é que são todos homens religiosos e justificados para matar de acordo com sua fé. Em tempos assim, o medo é compreensível, mas não pode ser o único sentimento. Ainda é preciso cultivar gestos de humanidade, mesmo quando tudo parece ruir. Porque se a guerra começa com explosões, a paz começa com consciência. E talvez seja esse o maior desafio do nosso tempo: não permitir que as imagens da destruição nos transformem em pessoas endurecidas, mas em seres mais atentos, mais solidários e mais responsáveis pelo amanhã que insistimos em chamar de futuro.
Aguardemos as cenas dos próximos capítulos.
Luís Alberto de Moraes – @luis.alb – Autor do livro “Costurando o Tempo – dos Caminhos que Passei”