Desmatamentos, mudanças climáticas e políticas públicas

Por incrível que possa parecer o Brasil é uma potência hídrica mundial, pois concentra 12% da água doce superficial do planeta. Em nosso país está uma das maiores redes hidrográficas globais com reservatórios subterrâneos estratégicos, como o Aquífero Guarani, segundo a ANA-Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico.

Mesmo com todo esse potencial hídrico convivemos com crises de abastecimentos e racionamentos. Os responsáveis pelos reservatórios de água e suas redes de distribuição de água tratada alegam níveis críticos dos reservatórios relacionando-os as questões climáticas, como a falta de chuvas. Essa situação é recorrente em diversas regiões do país.

A falta de integração de políticas públicas adequadas com aproveitamento da disponibilidade concentrada de água doce em nosso país, como o combate ineficaz do desmatamento no Brasil de forma geral mas, especificamente da Amazônia, impactaram nas mudanças climáticas.

O Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas afirmou, em 2021, que ‘florestas protegem nascentes, regulam chuvas e mantêm o equilíbrio climático. A perda dessa cobertura vegetal reduz diretamente a estabilidade do abastecimento hídrico regional e compromete o transporte atmosférico da umidade para outras regiões do país. As mudanças climáticas e o desmatamento formam um ciclo de retroalimentação. A redução da cobertura florestal diminui a regulação hídrica e aumenta a vulnerabilidade a extremos climáticos, o que exige políticas públicas mais robustas’, sendo esse o maior desafio institucional no Brasil.

O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas já constatou que eventos extremos, como secas prolongadas, tendem a se intensificar na América do Sul e o problema supera as variações climática. A escassez de oferta de água no Brasil concentra-se nas falhas de políticas públicas e estruturais de décadas. Portanto, a vulnerabilidade hídrica nacional vem desde o século passado.

O desequilíbrio climático é reconhecido por José Galizia Tundisi, em Recursos Hídricos no Século XXI, como um problema estrutural com a “deterioração progressiva dos ecossistemas responsáveis pela manutenção do ciclo hidrológico.”

Já Raimundo Garrido em Gestão da Água no Brasil, em 2010, alega que ‘países com menor disponibilidade natural de água conseguem manter estabilidade no abastecimento graças ao planejamento e a gestão eficiente’. Podemos concluir que o problema brasileiro não está na falta de água doce, mas nas decisões equivocadas de sua utilização. Vejamos o exemplo da EMPLASA- Empresa Paulista de Planejamento Metropolitano S.A que com a retificação e reversão hidráulica para geração de energia na usina Henry Bordem, em Cubatão: impactando nos rios que cortam o Planalto de Piratininga: Tamanduateí, Tetê e o antigo Jurubatuba, posteriormente transformado em canal do rio Pinheiros.

O conceito que se tornou prioridade do século XX para São Paulo com o ‘modelo energético e de drenagem urbana a partir da reversão dos rios metropolitanos. Observa-se que o escoamento das águas pluviais da extensa e impermeabilizada mancha urbana paulistana para a vertente oceânica, compromete o equilíbrio hidrológico regional’, segundo o DAEE- Departamento de Água e Energia Elétrica.

O desequilíbrio climático, na verdade, amplia o problema estrutural com deterioração dos ecossistemas responsáveis pela manutenção do ciclo hidrológico.

 

Essio Minozzi Jr. licenciado em Matemática e Pedagogia, Pós-Graduado em Gestão Educacional – UNICAMP e Ciências e Técnicas de Governo – FUNDAP, foi vereador e secretário da Educação de Mairiporã.