Carta para quem tem medo de amar de novo

Querida pessoa que tem medo,

Escrevo para você que passou por alguma decepção amorosa tão grande que te fez duvidar ser possível amar de novo. Para você que agora olha para o próprio coração como quem examina um objeto trincado: com cuidado, desconfiança e receio de tocar onde ainda dói.

Eu sei. Amar cansa quando termina em queda.

E não é só lidar com a perda e decepção do fato em si, mas também com a ferida que ficou. Mesmo cicatrizada, ela fica ali e, a qualquer situação semelhante, te faz relembrar o que a causou. Porque a dor não vai embora quando a história acaba. Ela muda de lugar. Vira cautela, vira silêncio, vira esse nó no peito quando alguém se aproxima demais. Às vezes surge sem aviso, num gesto pequeno, numa frase atravessada, numa promessa que soa parecida demais com a antiga. E então você percebe: não é sobre o que está acontecendo agora, é sobre o que aconteceu antes e ainda ecoa aí dentro. A dor ensina o corpo a se defender antes mesmo de o coração decidir se quer ficar.

Por isso é muito comum não querer mais um novo amor depois que outro te fez tão mal. A gente promete ser forte, promete não se entregar, promete fechar portas e janelas. Diz que aprendeu. Mas, no fundo, o medo não é de amar, é de reviver a dor, de repetir o erro, de se perder de novo em alguém que não ficou. O medo nasce do trauma, não da falta de sentimento.

Só que viver com o coração em modo de defesa também machuca. A vida vai ficando segura demais, silenciosa demais, vazia de riscos e de brilho. E amor, você sabe, nunca foi sobre garantias. Amar sempre foi sobre coragem. Não aquela coragem barulhenta dos filmes, mas a silenciosa, a de tentar apesar do medo, a de confiar mesmo sem certeza, a de não deixar que uma ferida antiga decida todo o futuro.

Talvez amar de novo não signifique repetir tudo igual. Talvez agora você ame com mais limites, mais verdade, mais cuidado consigo. Talvez amar de novo seja, antes de tudo, permitir-se sentir – sem pressa, sem promessas exageradas, sem esquecer quem você é. O amor não precisa ser um salto no escuro; às vezes, ele começa como um passo tímido, quase imperceptível.

Seja gentil com o seu tempo. Não se cobre coragem imediata. Mas não desista de você. O coração que sobreviveu à dor não é fraco, é experiente. E, acredite, ainda existe espaço aí dentro para encontros bonitos, calmos, possíveis. Amar de novo não apaga o que foi. Só prova que, apesar de tudo, você continua viva.

Há quem descubra, com o tempo, que o amor pode voltar de outro jeito. Menos urgente, menos barulhento, mais atento. Um amor que não chega para provar nada, nem para consertar o passado, mas para caminhar ao lado. Que respeita os silêncios, entende os limites e não exige que a coragem venha antes da confiança. Um amor que não apaga cicatrizes, mas aprende a conviver com elas, sem transformá-las em ferida aberta outra vez.

Fica esta carta para você que tem medo, mas segue tentando. Para lembrar que alguns encontros não começam do zero — eles continuam a partir do que somos agora.

Com afeto e presença, para quando você precisar.

 

 

 

 

Drielli Paola – @drielli_paola. Servidora Pública do Tribunal de Justiça de São Paulo. Bacharel em Direito, com pós-graduação e extensões universitárias na área jurídica. Entusiasta de psicologia, história, espiritualidade e causa animal. Apaixonada pela escrita.