Cativar (criar laços)

“Nunca houve tantas conexões e tão poucos encontros.”  (Zygmunt Bauman)

Estava relendo O Pequeno Príncipe enquanto preparava uma palestra para a catequese e a Crisma de adultos, quando, mais uma vez, o diálogo entre o Pequeno Príncipe e a Raposa me atravessou de forma profunda. Em poucas linhas, Antoine de Saint-Exupéry revela algo que parece cada vez mais esquecido em nossos dias: as relações humanas não nascem prontas, elas são construídas.

A Raposa pede algo simples e, ao mesmo tempo, exigente:“Por favor… cativa-me.”

Cativar, explica ela, não é possuir, mas criar laços. É aceitar que o outro se torne importante, único, insubstituível.

Vivemos em um tempo paradoxal. Nunca estivemos tão cercados de pessoas e ao mesmo tempo, tão solitários. Estamos no meio da multidão, mas poucos realmente nos conhecem. Falamos com muitos, mas nos encontramos com poucos. A Raposa ensina que o verdadeiro encontro não acontece de uma vez: ele se constrói “de pouco em pouco”, todos os dias, com paciência, presença e constância.

“É preciso que sejas paciente… Primeiro sentarás um pouco longe de mim, depois um pouco mais perto.”

Essa pedagogia do encontro contrasta com a lógica da pressa que domina nossas relações. Queremos intimidade imediata, confiança instantânea, resultados rápidos. Quando isso não acontece, desistimos. No entanto, vínculos verdadeiros exigem tempo e tempo, hoje, parece ser o bem mais escasso. Ao ser cativada, a Raposa deixa de ser apenas mais uma entre tantas. Ela se torna única. E o mesmo acontece com o Pequeno Príncipe. Em meio a milhares de pessoas, só se torna verdadeiramente alguém aquele que é conhecido e reconhecido. Ser único em meio à multidão não é ser famoso, é ser significativo para alguém.

Os campos de trigo, antes comuns, passam a ter sentido. Eles lembram os cabelos dourados do Pequeno Príncipe. Nada mudou externamente, mas tudo foi transformado por dentro. É assim também com nossas relações humanas e com a fé: quando criamos laços, o mundo ganha novos significados. Pessoas, lugares e histórias deixam de ser anônimos. Essa lógica vale também para nossa relação com Deus. Não se ama quem não se conhece. Não se confia em quem não se encontra. A fé não nasce de imposições, mas de convivência, escuta e abertura. Deus se deixa conhecer aos poucos, no cotidiano, na oração simples, na vida partilhada e no compromisso com o próximo.

Conhecer a si mesmo e conhecer o outro é um exercício profundo de empatia. É reconhecer limites, dores, histórias e esperanças. Em um mundo marcado pela desconfiança, pela polarização e pela indiferença, cativar torna-se um ato de resistência e de transformação.

“Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.”
Responsabilidade aqui não é peso, mas cuidado. É escolher permanecer. É não tratar pessoas como descartáveis. É confiar, mesmo sabendo que toda relação verdadeira traz riscos. Talvez o maior desafio dos dias de hoje seja reaprender a se encontrar. Reaprender a sentar-se um pouco mais perto. Reaprender a confiar. Porque só quem se deixa cativar é capaz de transformar o mundo ao seu redor.

Reflexão – Em tempos de multidão, pressa e superficialidade, a Raposa nos recorda que o essencial não está em quantas pessoas passam por nós, mas em quem escolhemos cativar. Quando nos permitimos conhecer e ser conhecidos, criar laços, exercitar a empatia e viver a fé como encontro, até os campos de trigo ganham novo sentido. E, pouco a pouco, somos transformados por Deus, pelo outro e pelo amor que escolhemos cultivar.

 

 

Raphael Blanes: Servidor Público Municipal, formado em Filosofia, Gestão em Saúde Pública, Técnico em Vigilância em Saúde com ênfase no Combate às Endemias, Gestão Hospitalar, Saúde Única (One Health), RH e Desenvolvimento de Equipes e graduando em Psicologia. Instagram: @raphaelblanes – Email: blanes.med@gmail.com.

Posts similares

  • Água

    Impossível viver sem tomar água, por motivos óbvios. Mas não é incomum nos esquecermos da quantidade que seja mais do que aquela que é suficiente, ou até mesmo substituir a água pura por outro líquido, que pode até ter água, como um suco, mas não é água. Comecei a tomar bastante água. Não, essa não…

  • Bom dia!

    Quantos são aqueles que realmente têm o hábito de desejar “bom dia” para todas as pessoas que encontram pela manhã? Existem algumas regras de boa educação que são imprescindíveis, como falar “por favor” e “obrigado”. Contudo, não acho que o “bom dia” seja uma delas. É claro que as palavras têm poder e receber um…

  • Sorte

    Não foi a primeira vez que esqueci a carteira na casa de outra pessoa. Contudo, em nenhuma outra situação, um lapso de esquecimento me causou tanto problema. Isso porque, justo naquele dia, eu havia deixado junto com ela o meu bilhete único. Para completar, a bateria do meu celular não estava em seus melhores dias….

  • O Cortiço

    RAPHAEL BLANES “A vida é relação.” (Martin Buber) Toda geração gosta de acreditar que superou o passado. É uma ilusão confortável, quase terapêutica. Aluízio de Azevedo, ao escrever “O Cortiço”, em 1890, não estava apenas descrevendo um casarão decadente na Rua de São Diogo, cercado de barracões amontoados, onde vidas se misturavam sem escolha. Ele…