Se o olhar for desatento, a gente passa pelo parque linear, perto da biblioteca municipal, sem notar que em meio aquelas árvores, como um cenário em meio a mata, surge um teatro de verdade. Os dizeres que dão título em uma fachada vermelha de letras brancas, emprestam seu nome a esse artigo e garanto, é de verdade! Apesar de já estarem por ali há um ano e meio, fui pela primeira vez nesta semana conhecer o espaço e assistir a um agradável espetáculo.
Sobre a trajetória do Contadores de Mentira, construiu ao longo de sua jornada uma linguagem própria, onde a cena nasce do encontro entre palavra, corpo e imaginação. Mais do que narrar histórias, o grupo se dedica a criar experiências sensíveis, capazes de tocar o público pela simplicidade aparente e pela profundidade simbólica. Seu trabalho valoriza o ato de contar como um gesto ancestral, em que a escuta se torna tão importante quanto a fala.
Eu sou daqueles adultos bobalhões que se encantam com a figura dos personagens e dos palhaços. O espetáculo Fábulas, marcou a última apresentação teatral do ano e foi apresentado pelo grupo “Mevitevendo”. A peça dialoga diretamente com essa tradição de contar histórias. A montagem resgata narrativas que atravessam gerações, mas as apresenta sob um olhar contemporâneo, sem recorrer a moralismos fáceis. As histórias ganham novos contornos e convidam o espectador a refletir sobre escolhas, convivência, medo e coragem; temas que sabidamente permanecem atuais.
O figurino possui máscaras, o que de cara fisgou totalmente o meu olhar. A musicalidade, ritmo e narrativa são doces e remetem a natureza e aos animais, dando o tom para a performance impecável da dupla de atores. Utilizam poucos elementos cênicos, mas intensamente capazes de explorar o jogo teatral. As luzes que se apagam e se acendem, revelam e escondem feições e sombras, criando imagens que constroem bem a imaginação.
Fiquei imensamente feliz e agora ansioso, pois o teatro retoma as suas atividades em fevereiro. Faço questão de espalhar a notícia e que todos fiquem atentos a programação, muitas delas abertas ao público, como foi o caso nesta oportunidade. Como a cultura faz bem a nossa alma, não é mesmo? O trabalho desenvolvido pelo Contadores de Mentira revela esse compromisso teatral de dialogar com diferentes idades, de forma que tanto crianças, quanto adultos, encontrem sentidos diversos nas histórias. Essa foi minha sensação. Particularmente admiro as fábulas e o que elas são capazes de fazer: divertir e convidar a reflexão. A atriz ao final, quando cumprimentou o público, nos disse que é moradora da nossa cidade há mais de vinte anos.
Esse teatro no parque oportuniza a palavra. Eu que gosto tanto da palavra e a tenho como matéria prima da vida, pude vivenciá-la no quintal de casa com tanta qualidade. A palavra ao vivo, nas vozes dos animais: burro, sapo, cobra, aranha e uma menção honrosa ao gato, meu preferido. Por isso, encerro este último artigo do ano com a convicção de que a presença do Contadores de Mentira em nossa cidade não é acaso, é necessidade.
Ter um teatro assim, fincado entre árvores, perto dos livros, é um privilégio silencioso que Mairiporã precisa aprender a gritar por proteção e reconhecimento. Ali, a arte não pede pressa, pede permanência. Ensina que a cidade cresce quando oferece abrigo à imaginação, quando permite que a palavra encontre chão fértil para ser dita e ouvida. Obrigado leitores pelo carinho deste ano e nos encontramos no próximo. E que nele possamos ser os grandes atores na vivência de cenas cada vez mais belas, prósperas e felizes.
Luís Alberto de Moraes – @luis.alb – Autor do livro “Costurando o Tempo – dos Caminhos que Passei”