Quando o preconceito fala mais alto que a fé

Há dores que o mundo insiste em tratar como exagero, quando na verdade são feridas antigas, abertas, que nunca tiveram tempo de cicatrizar. O racismo religioso é uma delas. Ele não nasce de um dia para o outro. Ele é construído, alimentado, repetido. Talvez por isso, tanta gente ainda finja que não vê. Mas existe um ponto em que o silêncio se torna cumplicidade. E a fé de alguém não deveria ser lugar de ataque. Fé é abrigo. É casa. É raiz. É aquilo que levanta uma pessoa quando tudo o mais falha.
Só que, para muitos, essa mesma fé vira motivo de medo, desconfiança, piada, violência. É quando o sagrado, que deveria acolher, se torna alvo. Racismo religioso é quando alguém olha para uma guia e enxerga perigo, não proteção. É quando um tambor é ouvido como ameaça, não como oração. É quando símbolos que carregam história, força e ancestralidade são tratados como “coisa errada”, “coisa suja”. E não há nada mais violento do que tentar apagar a espiritualidade de alguém – porque junto dela, apaga-se também sua história, sua cultura, seus ancestrais.
Nos últimos dias algumas manchetes me esmagaram por dentro. A truculenta invasão policial a uma escola de educação infantil, com violência física e psicológica contra uma professora que ensinava história e cultura afro-brasileira. Na semana seguinte, a notícia de um homem que, declarando-se cristão, esfaqueou a própria vizinha por causa da religião dela – um ato brutal que nada tem de fé, e tudo tem de ódio e ignorância.
É preciso dizer com todas as letras: isso é racismo, intolerância e violência travestida de religião.
Violência que nasce do preconceito não pode ser tratada como exceção, mas como alerta. Porque toda vez que alguém precisa esconder sua fé para existir em paz, o mundo perde um pouco da sua beleza. E perde também a chance de aprender. A espiritualidade de cada pessoa é um universo inteiro. Respeitar esse universo não exige concordar, exige humanidade.
Talvez seja essa a pergunta que precisamos fazer, não apenas como sociedade, mas como indivíduos: que tipo de pessoa eu estou escolhendo ser quando a fé do outro é atacada? A que se cala, a que ri junto, a que vira o rosto? Ou a que estende a mão e diz “Isso não está certo”?
O racismo religioso não se combate com grandes discursos, mas com pequenos gestos de coragem diária.
Com o reconhecimento de que ninguém tem o direito de dizer ao outro como se conectar com o sagrado. Com a consciência de que fé não se mede, não se hierarquiza, não se disputa. No fim das contas, as religiões tentam apontar para o mesmo lugar, um mundo onde haja mais respeito, mais bondade, mais humanidade. E a gente só chega lá quando aprende uma verdade simples, que o coração entende antes da mente: não existe caminho espiritual verdadeiro se ele exige que o outro seja apagado.
Eu, todos já sabem, prefiro viver assim, sei que sou mais feliz desta forma… confiando que o sagrado se manifesta sobretudo na maneira como tratamos o outro. E a você, caro leitor, desejo que nunca lhe falte lucidez para reconhecer o preconceito e, principalmente, força e caráter para não compactuar com ele.

Drielli Paola – @drielli_paola. Servidora Pública do Tribunal de Justiça de São Paulo. Bacharel em Direito, com pós-graduação e extensões universitárias na área jurídica. Entusiasta de psicologia, história, espiritualidade e causa animal. Apaixonada pela escrita.