Existe um drama silencioso, cotidiano e absolutamente universal: abrir a geladeira e esquecer o que ia pegar. Não importa a idade, o contexto ou o humor do dia, esse pequeno lapso acontece como se fosse um lembrete sutil de que o cérebro nem sempre acompanha a pressa da vida. A gente abre a porta, a luz acende, o frio invade o rosto e, de repente, nada. Um branco. Uma pausa. Um silêncio mental que parece suspender o tempo por um segundo inteiro. É quase cômico. Quase trágico. Quase filosófico. E talvez seja exatamente isso: não é esquecimento. É excesso de tudo.
Vivemos sobrecarregados. Entramos em um fluxo mental que nunca para. Pensamos em mil coisas ao mesmo tempo. Enquanto procuramos um pedaço de chocolate perdido em alguma prateleira, estamos mentalmente respondendo mensagens, planejando amanhã, processando o ontem e tentando sobreviver ao agora. E então a memória falha. O cérebro trava. O foco evapora. Não porque não somos capazes, mas porque estamos transbordando.
Abrir a geladeira e esquecer o que ia pegar é o símbolo perfeito da vida adulta atravessada por estímulo demais. É o corpo dizendo calma. É o cérebro tentando pedir pausa de um jeito meio atrapalhado. É uma micro falha que entrega uma macro verdade: estamos vivendo no limite da atenção.
E essa pequena confusão doméstica diz muito sobre o nosso tempo. Porque nunca fomos tão exigidos a estar presentes em tantos lugares ao mesmo tempo – física, mental e digitalmente. Nunca tivemos tanta informação circulando por dentro da mente em tão poucos segundos. Nunca fomos tão convocados a pensar antes de sentir. Nunca nos afastamos tanto do simples.
O drama de abrir a geladeira e esquecer o que ia pegar é quase um poema sobre o cansaço moderno. Sobre a incapacidade de estar 100% inteira em uma única ação. Sobre o quanto desaprendemos a viver um gesto de cada vez. Sobre o quanto perdemos a delicadeza do óbvio.
Mas dá para transformar esse micro caos em lembrete: da importância de desacelerar, de respirar antes de correr, de sentir antes de decidir e de existir antes de executar. Talvez o que falte não seja memória. Seja espaço interno. Seja presença. Seja diminuir a frequência do mundo para ouvir a própria mente com mais clareza.
Porque, no fundo, abrir a geladeira e esquecer o que ia pegar é só um sintoma poético de uma era que perdeu o foco – mas que pode recuperá-lo. E nessas pequenas falhas, aparentemente bobas, a gente percebe que precisa de menos ocupação e mais percepção. De menos acúmulo e mais pausa. De menos “fechar ciclos” e mais viver um momento de cada vez.
E eu prefiro viver assim, sei que sou mais feliz desta forma… aceitando que até o esquecimento diante da porta aberta da geladeira é um lembrete de que eu preciso sentir mais, respirar mais e existir mais para não perder a beleza das pequenas coisas que realmente importam. A você, caro leitor, desejo que encontre espaço dentro do seu próprio dia para perceber o simples antes que ele se perca no excesso. E que, mesmo quando abrir a geladeira e esquecer o que ia pegar, você possa lembrar que nem toda distração é fracasso, às vezes é só o tempo pedindo um pouco de suavidade.
Drielli Paola – @drielli_paola. Servidora Pública do Tribunal de Justiça de São Paulo. Bacharel em Direito, com pós-graduação e extensões universitárias na área jurídica. Entusiasta de psicologia, história, espiritualidade e causa animal. Apaixonada pela escrita.