As coisas que continuam mesmo quando tudo muda

Há momentos na vida em que tudo parece se mover ao mesmo tempo. Mudam funções, mudam afetos, mudam lugares, mudam as pessoas ao nosso redor, mudam prioridades silenciosamente. Quando percebemos, já não somos os mesmos que éramos alguns meses antes. A vida tem esse poder meio invisível de nos remodelar aos poucos – e de maneira tão delicada – que parece que foi espontâneo, mas não foi: foi processo, foi tempo, foi corpo respondendo, foi alma tentando sobreviver à enxurrada do inesperado, foi o mundo empurrando a gente para versões que a gente nem sabia que podia ser.
Mesmo assim, no meio de tanta mudança, há coisas que permanecem. Há fios que não se rompem. Há sustentações que continuam ali, silenciosas, mas sólidas. A palavra amiga que chega sem alarde. O pôr do sol que insiste em ser bonito, mesmo quando tudo desabou dentro de nós. O silêncio que cura. O abraço que fica um segundo a mais e devolve o chão. A música que abre lembranças guardadas. O carinho canino naquele dia mais difícil.
Há pequenas alegrias que salvam sem alarme, sem palco, sem espetáculo. Porque, no fundo, mesmo enquanto o mundo muda, não é o mundo que sustenta a gente. É essa espécie de amor discreto que aparece em micropontos do cotidiano. É essa força mínima que nasce no meio do caos – e que ninguém vê. É esse fio invisível que costura o que fomos com o que estamos nos tornando.
O tempo gira. O ciclo gira. O inevitável acontece.
E a gente muda junto, querendo ou não. Mas aquilo que é essencial não muda.
Aquilo que vem da alma não se perde. Aquilo que nos humaniza é irredutível ao tempo.
E talvez seja por isso que, mesmo depois de grandes rupturas, grandes quedas e reviravoltas, sempre existe um momento inevitável em que o corpo encontra outra vez o eixo, outra vez a direção, outra vez a serenidade. Não porque tudo se resolveu magicamente. Mas porque o que é real resiste. O que é raiz não se arranca fácil. O que é verdade interna não desintegra por causa do mundo externo.
As pessoas mudam – e como mudam. Os caminhos mudam. A gente muda. Eu mesma já morri e renasci tantas vezes e sei que vou continuar assim o quanto for necessário. Mas os sentimentos genuínos persistem de algum jeito. Eles talvez se expressem de outra forma, talvez não tenham o mesmo rosto, talvez não tenham o mesmo cenário, mas continuam existindo em alguma camada escondida dentro de nós. A vida adulta nos tira certezas, mas nos devolve profundidade.
No fim, as coisas que continuam são as que realmente importam. São elas que nos lembram quem somos quando estamos perdidos em quem estamos nos tornando.
E eu, como todos já sabem, prefiro viver assim, sei que sou mais feliz desta forma… me lembrando que, apesar do movimento constante da vida, algumas coisas essenciais atravessam, sobrevivem e se mantêm. E a você, caro leitor, desejo que encontre seus próprios pontos de permanência – mesmo em meio ao que ainda não fez sentido, mesmo nas mudanças que você não escolheu, mesmo nos capítulos que chegam antes de você estar pronto. Que você não se esqueça do que segue segurando sua alma em silêncio.
Porque é isso que nos ancora. É isso que nos salva. É isso que nos devolve ao eixo todas as vezes. E que, diante do novo que ainda virá, você possa reconhecer o que não se perde e continuar.

Drielli Paola – @drielli_paola. Servidora Pública do Tribunal de Justiça de São Paulo. Bacharel em Direito, com pós-graduação e extensões universitárias na área jurídica. Entusiasta de psicologia, história, espiritualidade e causa animal. Apaixonada pela escrita.