Exploração da natureza é fato político

Há nas ciências sociais uma curiosa tendência. Criam-se “conceitos” e lhes atribuem vida, desejos e até atividade física. A ideia de “capitalismo” talvez seja das mais interessantes, porque se trata de um fenômeno extremamente complexo e multifário que mereceu, desde o século 19, a atenção de dezenas dos mais poderosos pensadores da organização da sociedade humana. A ele se atribuíram as mais excelsas virtudes e os mais terríveis vícios, como foi o caso de Karl Marx, que explorou a sua essência.
Quem leu o primeiro volume de “O Capital” (A Maquinaria e a Indústria Moderna) não pode deixar de ter sentido que foi o conhecimento da história que o levou ao entendimento de como foi fértil e revolucionário o intercurso entre o trabalho do homem e a natureza, quando sua inteligência lhe permitiu criar bens (instrumentos) intermediários de produção que lhe multiplicavam a produtividade. Sob esse aspecto, o avanço de Marx sobre os economistas “clássicos” (dos quais, suspeito, ele foi o último) é abissal!
Essas considerações me vieram à mente ao ouvir um debate radiofônico entre um cidadão que se supõe um “cientista” e, portanto, portador da “verdade”, e um generoso, mas desinformado cidadão, que se pensa de “esquerda”, mas que não consegue entender os problemas de coordenação econômica numa sociedade de liberdade individual.
A acusação básica era a seguinte: foi o “capitalismo” que produziu a desenfreada corrida para o crescimento econômico que está destruindo a própria natureza. O “cientista” não conseguiu responder.
O problema é que não se trata de uma questão teórica, mas prática, que só pode ser resolvida pelo conhecimento da história. Primeiro, é claro que qualquer atividade humana, não importa se organizada como “capitalismo” ou “socialismo”, é consumidora da natureza (obviamente finita!) que criou nossa espécie que, por sua vez, a “consome” para sobreviver materialmente.
A exploração da natureza é um fato político. Não foi criado pela competição de “conceitos”, mas pelos senhores que, na sociedade, detêm o poder. A competição começou quando Lênin, na Rússia, em 1917, sugeriu que uma organização alternativa ao “capitalismo” era possível, desde que ela imitasse os seus métodos de produção, mas não a sua organização social.
A situação piorou muito depois da Segunda Guerra Mundial e do evento da Guerra Fria entre EUA e URSS. A disputa era: quem vai “crescer mais depressa”? Sobreviveria quem ganhasse a corrida! O problema da China é apenas mais uma reprodução do mesmo fenômeno. Uma organização social híbrida: o mercadão como instrumento da tirania política e mais destruição da natureza.

Fonte: uol

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